06/01/2008

Carta morta à um amigo espectral


Queria eu te dizer que tudo vai bem

Que as guerras acabaram!

Que as florestas são mais verdes

Que o nosso hino não mente

Que a paz reina por aqui


Amicíssimo, as coisas não são assim.

Quando partiu, perdi meu chão

A inegável instabilidade emotiva instaurou-se indubitavelmente em mim

E o mundo só piorou


Naquele tempo, o nosso Nobel, para quem torcíamos tanto, foi preso por pedofilia...

O “Joe”, no auge da carreira, morreu de overdose.

E a bela Vanessa, suicidou-se!

Isso mesmo; pois pensou estar grávida novamente.


Teus filhos, coitados.

Queria eu, ajudar-lhes, mas olhares oblíquos negaram-me aproximação.

Nego-lhes afeição

Negam-me amizade,

Nego-lhes fraternidade.


Ah é, o mundo, pois é.

O tempo passou não só para mim, como para o planeta.

Estou escrevendo-lhe sob luz de vela

Pois não só o nosso estado, como todo o nosso país está sem luz,

após longo período de seca que a terra passou.

A antiga e famosa miséria africana não é nada agora.

Nossas crianças morrem antes mesmo de nascer.

A terceira idade não existe.

O sorriso é artifício de poucos.


Eu sorrio

Sorrio porque estou as margens do Amazonas, que por sinal virou um pequeno riacho se assim poderia chamá-lo.

Mas o resto deste país pereceu.


Horror

Terror

Temor

Derrota

Morte


O pior do inferno é o cheiro

Cheiro de morte

Cheiro de morto.

Digo isso porque sei que o inferno é aqui!


A sorte contemplou aqueles que como você receberam a visita dos anjos da misericórdia

Até breve


Ângelo Exupery

0 Comments: